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sexta-feira, 3 de maio de 2019


O menino que levou choque no rio
Ângela Rita Teixeira, em O Sexto Lírio - Reflexões de uma educadora

Ele tinha os olhos mais espertos que já vi até hoje. Faiscavam como tochas de fogo, da cor de mel. Tinha morado na cidade grande um tempo. Mas tinha suas origens aqui.

Íamos participar de um concurso de desenho sobre segurança na eletricidade e eu queria muito que todos se dedicassem.

Fizemos uma aula expositiva sobre o assunto, passei alguns vídeos, fizemos uma roda de conversa e começamos as atividades.

Todos se concentravam nos desenhos, menos o menino de olhos de fogo. Ele só reclamava:

“Ah, tia, eu não vou fazer isso, não!”

E eu incentivando: “Tem que fazer. Vamos todos participar!”

Já quase no final da aula ele disse, com os olhos faiscando nas memórias que trazia:

“Tia, a senhora sabia que um dia o ribeirãozinho tava dando choque na gente? Eu mesmo tomei um choque!”

Eu quis saber detalhes e ele contou de uma cerca elétrica que passava lá perto e o rio começou a dar choque.

Eu então, disse: “Pois desenhe sobre isso! É fantástico! Foi uma experiência ruim, mas fala sobre os perigos da eletricidade.”

Ele, ressabiado, desconfiou:

“Mas isso tem haver mesmo, tia? Isso foi uma coisa que aconteceu comigo e meus colegas... Se for isso, eu sei desenhar.”

E desenhou o desenho mais incrível, com placas de avisos (que ele criou por conta própria, porque achou que era importante e faltavam naquele local). Ainda que fosse só um desenho, ele já estava se preparando para intervir positivamente na sua realidade.


Figura 5: Desenho do menino de olhos de fogo, com as placas alertando dos perigos..