O menino que levou
choque no rio
Ângela Rita Teixeira, em O Sexto Lírio - Reflexões de uma educadora
Ele tinha os olhos mais espertos que
já vi até hoje. Faiscavam como tochas de fogo, da cor de mel. Tinha morado na
cidade grande um tempo. Mas tinha suas origens aqui.
Íamos participar de um concurso de
desenho sobre segurança na eletricidade e eu queria muito que todos se
dedicassem.
Fizemos uma aula expositiva sobre o
assunto, passei alguns vídeos, fizemos uma roda de conversa e começamos as
atividades.
Todos se concentravam nos desenhos,
menos o menino de olhos de fogo. Ele só reclamava:
“Ah, tia, eu não vou fazer isso, não!”
E eu incentivando: “Tem que fazer.
Vamos todos participar!”
Já quase no final da aula ele disse,
com os olhos faiscando nas memórias que trazia:
“Tia, a senhora sabia que um dia o
ribeirãozinho tava dando choque na gente? Eu mesmo tomei um choque!”
Eu quis saber detalhes e ele contou de
uma cerca elétrica que passava lá perto e o rio começou a dar choque.
Eu então, disse: “Pois desenhe sobre
isso! É fantástico! Foi uma experiência ruim, mas fala sobre os perigos da
eletricidade.”
Ele, ressabiado, desconfiou:
“Mas isso tem haver mesmo, tia? Isso
foi uma coisa que aconteceu comigo e meus colegas... Se for isso, eu sei
desenhar.”
E desenhou o desenho mais incrível,
com placas de avisos (que ele criou por conta própria, porque achou que era
importante e faltavam naquele local). Ainda que fosse só um desenho, ele já
estava se preparando para intervir positivamente na sua realidade.
Figura
5: Desenho do menino de
olhos de fogo, com as placas alertando dos perigos..

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